* Mensagem exposta no Treinamento em 12/04/08 *
Anseio
Pedro Ayres Magalhães
Anseio
Pela visão
final
da sociedade
Vagueio
Entre ilusões
seguras
Sobre a verdade
Confesso
a impressão
De pouca
sensibilidade
E peço,
Numa canção
um pouco de actualidade
Anseio
Pela visão
Total
Da nossa Idade
Levada
Entre versões
Contrárias
Da realidade
Confesso,
Que não perdi
Ainda
toda a vontade
De Ter
A fotografia
De Toda
A humanidade
Anseio
Uma razão
No meio
Da confusão
E espero
Vir conversar
contigo
Quando parar
----
É ilusão, é ilusão, diz o Sábio. Tudo é ilusão. A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando e afinal que vantagem leva em tudo isso? Pessoas nascem, pessoas morrem, mas o mundo continua sempre o mesmo. O sol continua a nascer, e a se pôr, e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez. O vento sopra para o sul, depois para o norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar. Todos os rios correm para o mar, porém o mar não fica cheio. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez. Todas as coisas levam a gente ao cansaço - um cansaço tão grande, que nem dá para contar. Os nossos olhos não se cansam de ver, nem os nossos ouvidos, de ouvir. O que aconteceu antes vai acontecer outra vez. O que foi feito antes será feito novamente. Não há nada de novo neste mundo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: "Veja! Isto nunca aconteceu no mundo"? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos. Ninguém lembra do que aconteceu no passado; quem vier depois das coisas que vão acontecer no futuro também não vai lembrar delas.
(Eclesiastes 1:2-11)
Quem pode descrever em poucas palavras como anda o mundo de hoje?
A gente consegue, por vezes, ouvir algum grito abafado de alguém por aí. Poetas, músicos, pensadores, nosso colega em seu estado sombrio e entediado, o outro se esquivando de todos os assuntos que o façam admitir sua futilidade. Talvez nós estejamos vivendo no século dos desistentes. A razão foi entronizada, adorada, mas já está velha, incapaz de atender às demandas do homem moderno. O respeito pela vida, aos frangalhos, só existe ainda talvez por um resto de consciência. Não é que a gente tenha desistido de procurar a verdade, mas é que a gente não precisa mais dela, tendo construído cada um a sua.
"Os tribalistas já não querem ter razão
Não querem ter certeza
Não querem ter juízo nem religião."
Mas de vez em quando aparece um perdido sincero confessando que o mundo está uma confusão. Hoje sai uma notícia dizendo que o café, em doses moderadas, pode fazer bem à saúde e prevenir câncer. Amanhã um médico diz o contrário. E os pobres mortais vão se sentindo cada vez mais sós, cada vez mais acuados, precisando de tantas barreiras para se sentirem seguros num mundo agressivo e confuso. Assim surge a geração dos eternos jovens. Incapazes de aceitar a idéia de se tornar mais maduro e sóbrio, prendem-se na energia como a saída para o contentamento.
A gente pode tentar, como disse Pedro Ayres Magalhães, tirar uma fotografia de toda a humanidade. Mas eu acho que a gente normalmente nem pensa nisso. Nós, que nos dizemos cristãos hoje, evitamos análises profundas do ambiente ao nosso redor, parece que temos medo de nos envolver com as pessoas que nos cercam. A gente prefere muito mais ficar entre os "irmãos", cantando músicas boas e fazendo um evento envagelístico de vez em quando. Nosso dia a dia fica sendo apenas o pré e o pós dos cultos de domingo, os grandes centros da vida "cristã" de hoje.
Hoje enfatizamos as palavras "separação" (santidade), retirando-as de seu contexto para justificar nosso distanciamento com o mundo. Nós (evangélicos) criamos nossa própria música, nossa literatura, e todo um universo "Gospel", retirando do mundo nossas grandes oportunidades de diálogo com a humanidade, fora da igreja. Será que isso tudo é para pregar o Evangelho? Ou será que recorremos à religiosidade porque, no fundo, também não nos sentimos seguros no mundo. Porque precisamos de uma identidade 'Gospel'? Porque precisamos nos identificar como sendo assembleianos, batistas, presbiterianos, católicos, protestantes, calvinistas, e assim por diante?
Recentemente passei caminhando pela praça da Sé, em São Paulo. Quando cruzei com pregador, olhei para o chão e me assustei ao ver que estava pisando numa área desenhada no chão, em vermelho. Parecia que eu tinha cometido um sacrilégio, porque dentro dela estava escrito, bem grande, "JESUS". O pregador que estava dentro nem deu muita bola, mas instintivamente eu pulei fora logo que percebi a gafe. Será que esse é o Jesus que conhecemos? Exclusivo dos templos e domingos, inacessível ao cidadão que não entende nada disso?
O Jesus que eu conheço soa mais como esse aqui:
"Jesus era um homem de pés sujos.
Ele passou a maior parte daqueles três anos
andando com as pessoas.
Seu convite era para que se transformassem
em seguidores chegados.
Em todos os lugares,
grandes multidões juntavam-se à sua volta
para ouvi-lo,
estar com ele,
ver qual seria seu próximo feito.
Jesus liderava seus doze seguidores mais próximos
e eles andavam juntos por estradas poeirentas.
Juntos iam a festas.
Juntos comiam refeições.
Juntos trabalhavam.
Jesus andou como um homem entre homens,
fazia amizade com políticos e marginalizados,
participava de festas com
pecadores e criminosos,
e abraçava como se fossem da família
pessoas que encontrava pelo caminho.
Jesus não ficava flutuando em nuvens imaculadas.
Jesus não era nenhum elitista distante.
Jesus não era nenhum eremita estranho.
Ele preferia o mundo da
poeira, e dos amigos, e dos apertos de mão.
Ele abraçou essa vida relacional sobre a terra
com mais paixão do que alguém jamais abraçou."
(Jesus de Pés Sujos, Don Everts)
Nosso chamado de seguir a Jesus não é pra ir na igreja cantar louvores, carregar uma bíblia e ouvir o sermão, mas de se relacionar com as pessoas ao nosso redor tornando-nos amigos daqueles que são rejeitados, dos que precisam de algo, e assim nos aproximarmos da humanidade em todas as esferas possíveis, como se fôssemos uma infecção saudável, uma doença que pentra até os ossos da sociedade, que desconserta com seu amor inexplicável.
E é por isso que a gente, do grupo da ABU, está aqui hoje. Pra desafiar e ser desafiado. Primeiramente, questionar nosso cristianismo muitas vezes alienado e distante do mundo. Posteriormente, entender melhor o que é Missão e quem é chamado para isso. No final da sua estadia na terra, Jesus deixou uma tal de Grande Comissão para todos os que o seguissem. Vamos continuar ouvindo a palavra aos fins de semana, ou vamos decidir vivê-la no nosso dia-a-dia? A Missão existe em todas as esferas humanas. Desde a África até o nosso vizinho, da favela ao subúrbio, da política ao esporte, das artes aos locais de trabalho. Nosso chamado engloba todo o mundo no qual estamos inseridos. Somos convocados à trabalhar em regime integral para a expansão do Reino de amor de Jesus.
A ABU surgiu desse conceito, com a idéia de fazer Missão no mundo dos estudantes, esse mundo doido que a gente conhece. E quem melhor do que os próprios estudantes, que compartilham os mesmos medos, preocupações, frustrações e estilos de vida, para ser luz nesse meio? Assim, procuramos sair do saleiro, e nos jogamos como sementes, dispostos a deixar que morramos e nos tornemos tempero para o mundo. Nossa pregação não é a dos estudos bíblicos, mas a do abraço quando nosso colega se sente mal, do conselho amigo, e da presença constante e marcante dentro da nossa Universidade ou escola. Que acima de tudo, tenhamos em nossos corações um forte e marcado desejo de ir ao mundo, estando seguros em Cristo. É a grande lição do Mestre, quando era capaz de ser tão divino, e ao mesmo tempo, tão humano.
Que sejamos amigos da poeira, amigos dos pecadores. Que nos conheçam por sermos os doidos cristãos na Universidade e nas escolas, que carregam sua fé junto com a mochila e as canecas, e que interagem com esse mundo inexplicável e inseguro, que trazem esperança para quem não sabe onde se agarrar nesse furacão de idéias e sentimentos. Mas para isso, precisamos de visão ampliada. Precisamos aprender a ler o mundo e o que ele grita. Precisamos parar de tapar nossos ouvidos quando alguém pede ajuda. Precisamos nos lembrar que Deus não habita em nossos templos humanos, que não cabe numa caixinha quando tentamos explicá-lo, que ele não é um Leão domesticado. Martinho Lutero escreveu certa vez:
"Nosso Senhor escreveu a promessa da ressurreição não somente em livros, mas em todas as folhas da primavera."
Vamos pedir então, que não somente tenhamos fôlego e coragem, mas que primeiro o Senhor nos renove a mente e o coração, e passemos a ser os discípulos de pés sujos seguindo pelo caminho, vivendo no Caminho e vivendo no mundo, nesse aparente paradoxo que marcou a vida de Jesus na Terra. E assim vamos descobrindo o que é ser humano em sua idéia original. Que nos arrependamos de tomar o caminho mais fácil, o caminho largo, de passar para o outro lado da estrada ao invés de ajudar o homem ferido. De definir procedimentos e programações evangelísticos para aliviar nossa consciência quando na verdade vivemos a vida para nós mesmos, da maneira mais cômoda.
Assim, está lançado esse desafio, de viver e pregar a Graça, a Boa Nova, aos nossos colegas estudantes.
---